domingo, 28 de dezembro de 2014

Eu estou cansado - por Douglas Fersan


Eu estou cansado.
Mas não é de não poder falar palavras. É de não ter disposição ou coragem para dizê-las.
Eu estou cansado, mas não desses dez anos passados, vividos entre o sonho e o som.
Estou cansado é de uma vida passada somente entre sonhos e sons.
Não estou reclamando da idade, nem sei se quero a longevidade das Dercys e dos Nyemaiers. Quero a intensidade. Não reclamo das enfermidades que vivi nesse ano (e que não foram tantas, mas foram sérias). Reclamo de me sentir só e impotente diante delas.
Não reclamo das minhas lágrimas, pois não lembro de tê-las derramado - talvez devesse ter me rendido a elas, provavelmente hoje estaria mais leve. Reclamo de descobrir que mesmo quem eu jurava as secaria me confessou que acredita que homem não chora.
Eu estou cansado, mas não reclamo das dores, reclamo da incompreensão. Reclamo quando minhas dores são minimizadas justamente por aqueles a quem dediquei e dedico - e ainda dedicaria - tanto zelo.
Não sou altruísta nem santo. Sou um ser que quer ser normal, e que justamente por ser assim, esperava que as coisas seriam diferentes.
Eu reclamo quando vejo que sobra tanto amor e paciência e, talvez por consequência, falte um tanto para mim.
Mas eu reclamo demais, eu falo demais, eu sofro demais - ah, isso eu faço muito bem - e me canso demais também.  Demoro a cansar, mas um dia eu canso... e tenho medo do meu cansaço, pois ele transcende o convencional. É um cansaço cósmico, anti-convencional, mas pesa como uma cruz de peroba nas costas.
Não quero me cansar. Não quero reclamar. Quero andar - ah, como tenho sentido falta disso, mas não estou inerte por vontade própria, embora alguns pareçam não entender isso - quero cantar, quero saravar, quero jogar flores no mar e acender velas na cachoeira. Quero educar, quero produzir, quero ter sucesso no que faço, quero ser respeitado e acima de tudo, não quero ser minimizado, pois é justamente disso que estou cansado... por demais.

Douglas Fersan
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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Feliz natal - por Rita Lee


Juro que eu tento, mas todo fim de ano me rebelo. Do Natal, apesar da mortandade dos perus, gosto dos enfeites, das luzinhas, dos presépios. Mas esse negócio de ser obrigado a dar presentes me faz ter uma recaída naquele meu fracassado personagem hippie-comunista-anti-vietnã. Tenho pavor do papai nœl, também conhecido como Santa, velho suadāo vestido de vermelho-menstruação que põe criança no colo e só presenteia as 'boazinhas'. Para mim esse cara tem um pé na pedofilia. Ainda por cima leva dos pais o crédito pelos mimos e rouba a cena do menino Jesus.
Feliz Natal...Pow!