sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Chega de feijão - por Douglas Fersan


Hoje não tem feijão.
Para que feijão? Queremos néctar, queremos sangue (do bom), queremos a alegria dos burgueses e a resistência dos proletários.
Hoje não tem feijão.
Detesto feijão. Prefiro filé filosófico fatiado em fartas porções folhadas e servidas acompanhadas de fernet, que mesmo amargo é menos fútil que feijão.
Chega de feijão. Sejamos adeptos do hamburguer estadunidense, gorduroso, esbanjando lipídios imperialistas, aculturando povos ameríndios e enchendo o mundo da graça tecnológica que nos dá a falsa ilusão de um mundo sem perspectiva, kafkaniano, chapado, com a aparência de um minecraft em 3D.
Para que feijão em um mundo que necessita mais de futilidades do que de alimentos?
Que o povo morra à míngua, dizem os burgueses.  Ainda temos sua carcaça para pendurar no curtume e produzir bolsas de couro.
Enquanto houver pobre haverá couro a ser castigado e a ser explorado.
Dane-se o feijão. Viva a possibilidade de explorar quem morre por falta dele.
Um brinde à lógica medíocre do burguês.

Douglas Fersan
.'.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Letras que são poemas: Vampiro (Jorge Mautner)


Eu uso óculos escuros
pras minhas lágrimas esconder
E quando você vem par ao meu lado
aí as lágrimas começam a correr
Eu sinto aquela coisa no meu peito
eu sinto uma grande confusão
Eu sei que eu sou um vampiro
que nunca vai ter paz no coração

Às vezes eu fico pensando
porque é que eu faço as coisas assim
a noite de verão, ela vai passando
com aquele seu cheiro louco de jasmim
Eu fico embriagado de você,
eu fico embriagado de paixão
No meu corpo sangue não corre não
corre fogo e lava de vulcão

Eu fiz uma canção cantando
todo o amor que eu sinto por você
você fica escutando impassível
eu cantando do teu lado a morrer
e ainda teve a cara de pau
de dizer naquele tom tão educado
"Oh, pero que letra más hermosa
que habla de un conrazón apasionado"

Por isso é que eu sou um vampiro
e com meu cavalo negro eu apronto
e vou sugando o sangue dos meninos
e das meninas que eu encontro
por isso é bom não se aproximar
muito perto dos meus olhos
senão eu te dou uma mordida
que deixa na sua carne aquela ferida

Na minha boca eu sinto
a saliva que já secou
de tanto esperar aquele beijo
ah, aquele beijo que nunca chegou
Você é uma loucura em minha vida
você é uma navalha pros meu olhos
você é o estandarte da agonia
que tem a lua e o sol do meio dia...